Caso Carlinhos
Tirando dúvidas ...seria apenas uma maneira fácil de
resolver a vida: deixaria o marido,
ficaria com o amante, levaria o filho querido e faturaria uma graninha. Não era pra ter saído tão errado. Aqui temos algumas perguntas que me foram feitas por Renata Hingel e outros interessados, em diferentes ocasiões, cujas respostas
reuni e sintetizei para melhor acompanhamento.
Maria da Conceição Ramirez da Costa, mãe de Carlinhos, afirmou há pouco tempo que vivia bem
com o marido e sua separação ocorreu em função do desgaste causado pelo drama do seqüestro. Você afirma que eles já não viviam bem à época do crime.
Pode esclarecer?
Celso - O próprio marido, João Mello, declarava-se separado de Conceição, na ocasião do seqüestro, embora ainda
vivessem sob o mesmo teto. Comentava-se, na época, que o motivo da separação seria o comportamento anormal da mulher, em particular seus casos
extra-conjugais. Está nas primeiras reportagens, basta conferir nos jornais da época. Maria da Conceição está enganada ou mentindo.
Na
época do programa de TV Linha Direta, ela disse que a culpa pelo seqüestro não ter sido resolvido foi de João Mello, que divulgara o bilhete de
resgate para os jornais. Você diz que quem entregou o bilhete para você foi a Polícia...
Celso - Primeiramente, o bilhete surgiu
nas mãos de Conceição, que o entregou ao marido (ela alega que recebeu o papel da filha Vera Lúcia). João o
repassou ao detetive da 9ª DP que, pouco depois, me emprestou o documento para que o nosso fotógrafo o reproduzisse. Absolutamente, o pai de Carlinhos
não divulgou o bilhete, mas entregou-o diretamente à polícia. Novamente a mãe enganou-se ou mentiu.
E, aliás, esse bilhete depois desapareceu do inquérito policial.
"Tragédia
Com Ópera Bufa: o seqüestro de Carlinhos ajuda a entender por
que a justiça prefere se basear em provas e jamais em acusações. Se
não fosse assim, ai de nós. João Mello que o diga." (Percival
de Souza, jornal O Estado de São Paulo, 31/08/1986)
Considerando o profundo
conhecimento que você possui acerca de detalhes do caso em questão, você participou como depoente no programa Linha Direta Justiça da Rede Globo,
quando este exibiu o caso Carlinhos? Celso - Não me considero um profundo conhecedor do caso, meu
relato é apenas sobre o período em que fiz a cobertura jornalística. Nunca fui chamado por ninguém para qualquer esclarecimento ou depoimento,
provavelmente porque pouca gente sabe que a matéria do Carlinhos foi iniciada por mim. Nunca fiz questão de lembrar que o Gilson, tido como o primeiro
a ir ao local, foi lá para me substituir, mais de uma hora depois de minha chegada à Rua Alice. Nunca liguei para esse
"lapso" e até ria ao assistir a eventuais reportagens ressuscitando o assunto, com informações geralmente superficiais. Eu estava
noutra, fazendo coisas na vida bem distantes do jornalismo. Mas foi justamente a abordagem do Linha Direta que me deixou revoltado. O programa seguiu
uma linha equivocada do princípio ao fim. Os depoimentos de alguns colegas pecaram por graves imprecisões, principalmente quando contaram coisas que
na realidade não testemunharam, porque não estavam lá no momento.
Tantas informações precárias tornaram o programa uma ficção e, o
mais grave, transformaram Maria da Conceição - uma importante suspeita - numa "mãe sofredora" que, bem ao gosto do núcleo de novelas
da Globo, causou comoção em alguns milhões de telespectadores. Mandei um e-mail para a emissora, nunca me responderam. Fiz, então, algumas observações
no fórum que o programa mantém na web, a respeito dessas incoerências. Foi a partir daí, depois de alguns meses, que a jornalista Renata
Hingel
entrou em contato comigo e... bem, o resto já está contado no site.
Quem comunicou o "rapto" na padaria?
Celso - Foi um empregado de João Mello, o Abel Silva. Eles e dois filhos haviam chegado de carro e, após soltarem a família que estava presa no
banheiro e serem alertados do seqüestro, ainda conseguiram ver o seqüestrador pulando o muro da rua e sumindo no mato, enquanto um táxi que provavelmente
dava apoio ao criminoso seguiu adiante, talvez levando apenas o menino (hipótese que se levantou posteriormente). Abel entrou no mato atrás do seqüestrador
e João desceu de automóvel para a rua das Laranjeiras, onde pediu a ajuda de um PM de trânsito, que seguiu com ele para dar buscas. No meio da ladeira,
encontraram um fusca da PM, que os acompanhou até o local do seqüestro. Como os policiais nada encontram no local nem nas ruas próximas, orientaram João
a comunicar o caso à 9ª DP para prosseguimento à investigação e foram embora.
Você conversou com o pai de Carlinhos quando o encontrou na calçada?
Celso - Conversei pouco, naquele momento. Ele estava muito abalado, desesperado mesmo, sozinho feito um maluco no meio da rua, debaixo de chuva,
chorando e gritando por ajuda. Jamais esquecerei essa cena tão forte. Os PMs já tinham ido embora. Contou-me resumidamente o que tinha ocorrido ("um sujeito roubou meu filho
e fugiu pelo matagal ali", e apontava, trêmulo); perguntei se o filho estava com ele quando foi levado e ele me disse que não, que a mulher dele é que
sabia os detalhes, que ela estava em casa e que eu podia entrar lá. Creio que ele pensou que eu era policial. A turma da 9ª DP chegou uns 10 minutos
depois.
A família estava em casa quando um homem encapuzado entrou com uma arma e levou Carlinhos. De acordo com a mãe do menino, quando o
marido voltou para casa na noite do crime, o seqüestrador ainda podia ser visto caminhando com Carlinhos. Porque ela ficou assistindo à TV como se
nada tivesse acontecido?
Celso - Peraí! Não teve isso de encapuzado, não. O sujeito entrou na casa de cara limpa. Quando conversei
com Conceição e as crianças (antes da polícia), todas disseram que o criminoso era um rapaz (jovem) preto, com blusa vermelha e cabelo tipo black
power e só. Na versão posterior de Conceição para a polícia, ele já cobria o rosto com um pano, talvez um lenço, disfarçava a voz e tinha uma arma.
Segundo as crianças me disseram, o sujeito não estava armado. Um fato curioso é que a própria Conceição mandou Carlinhos "ficar quieto e seguir com
ele". No inquérito, alegou que fez isso para tranqüilizar o menino, mas os policiais acharam suspeito.
Conceição mostrava distúrbios de
comportamento flagrantes, como lhe disse anteriormente. A chegada dos repórteres e fotógrafos a deixou num estado de imensa felicidade, quase em
êxtase. Aliás, ela não trocava a TV por nada e nem adiantava bater na sua casa durante os horários das novelas, ela não atendia. Aprendemos isso logo
nos primeiros dias de campana na rua Alice.
Quanto à cena na rua, o empregado João chegava em casa com Abel e duas crianças. Enquanto
João fechava o veículo, Abel entrou, ouviu os gritos das crianças e da mãe trancadas no banheiro e soltou-as. Somente aí ficou sabendo o que ocorria
na porta de casa e correu para fora, alertando João sobre o que acontecera. Chegaram à rua a tempo somente de ver um táxi partindo e um homem entrando
no mato. Abel foi atrás dele, mas não o alcançou no matagal. Em nenhum momento o seqüestrador foi visto caminhando com o menino, como diz Conceição. E
nem ela poderia saber se o seqüestrador ainda estava em posição de ser visto por João, já que estava presa no banheiro, não é lógico?
Quatro anos depois do seqüestro, Vera Lúcia, irmã de Carlinhos, disse à polícia que reconheceu Sílvio Azevedo Pereira, funcionário do laboratório
do pai, como seqüestrador. Você acha que ela foi influenciada pela mãe a dizer isso? Por que ela esperou todo esse tempo?
Celso - É
evidente que teve a pressão da mãe nesse depoimento, deve ter sido quase uma lavagem cerebral. Além disso, vários episódios protagonizados por Vera
levam a crer que ela herdou alguma coisa da fantasia materna. Veja bem, Sílvio era freqüentador assíduo da casa de Conceição, certamente os filhos e a
própria mãe o reconheceriam imediatamente, com lenço no rosto ou não. E a descrição do seqüestrador - jovem negro com cabelo black power - não era a
de Sílvio. Diga-se de passagem, naquela época a figura do "negão black power" encarnava o estereótipo de bandido em qualquer ocasião. Todo
assaltante tinha esta descrição no depoimento das vítimas.
Além disso, Conceição, logo após o crime, alegou que não teria como identificar o
seqüestrador "porque estava muito escuro e o homem usava um pano no rosto". Será que uma criança, assustada, conseguiria ver mais que ela? Fui o
primeiro a conversar com os filhos, inclusive a Vera, e todos afirmaram categoricamente não conhecer o cara - estavam lúcidos, calmos e me pareceram
sinceros. No dia seguinte ao do seqüestro, Vera Lúcia, incoerentemente, já acusava um vizinho, Kleber de tal, que foi imediatamente preso e
interrogado, sendo solto pouco depois. Mais tarde, acusou o Sílvio. Não dá para levá-la a sério.
Conceição acusou todo mundo ligado ao marido,
foram dezenas de infelizes incomodados ou presos por causa dela. Clientes de João foram acusados e investigados e até o sujeito que lhe vendera um
carro foi preso e teve sua foto exibida nos jornais. Um vizinho (o tal Kleber), de quem ela não gostava, foi outra vítima. Um mecânico (José de tal)
com quem ela teria tido um caso amoroso e que trocou sopapos com João Mello também penou. Conceição o acusou e, pessoalmente, conduziu a polícia até o
seu trabalho na Baixada Fluminense para que fosse preso. Parece que ela acusava pelo seqüestro todos os seus desafetos e ex-amantes. Circulavam
suspeitas entre os vizinhos, policiais e jornalistas de que Sílvio também estivera entre os casos amorosos atribuídos a Conceição, que passara a
odiá-lo quando tudo terminou, como era seu costume. A comprovação deste romance teria sido a justificativa para o arquivamento do processo contra
ele.
"Ajuste
de Contas: João Mello, pai de Carlinhos, sofreu uma das mais
sistemáticas campanhas
de difamação já levadas a efeito contra um cidadão."
(
Lionel Fischer, jornal Jornal do Brasil, 27/7/86)
O detetive particular Bechara Jalkh, que nos anos 70 investigou o seqüestro contratado pelo jornal O Globo, enviou o bilhete com
o pedido de resgate a exames grafotécnicos. Segundo a matéria, o exame comprovou que a letra era de Sílvio Azevedo Pereira, funcionário de Costa que
foi reconhecido por Vera Lúcia. É verdade?
Celso - O Bechara Jalkh era visto com reservas por alguns jornalistas e policiais devido a
sua disposição para lances sensacionalistas e marketing pessoal. Também o fato de ser um anunciante tradicional de O Globo e o boato de que
trocara seus serviços por inserções publicitárias na edição de domingo provocaram dúvidas sobre a validade de suas conclusões. De qualquer forma, as
análises modernas e confiáveis feitas hoje na USP ou na Unicamp certamente seriam úteis para reavaliar o material analisado primariamente pelo detetive
particular. O que a Globo fez naquela época foi montar um show, como em outras circunstâncias e ocasiões fez com
o Padre Quevedo, por exemplo.
O que foi feito com o dinheiro arrecadado para o pagamento do seqüestro?
Celso -
Primeiro é preciso saber como os Cr$100 mil foram obtidos. Quase metade
(Cr$47.700) foi conseguido por empréstimo no Banco Nacional contra a garantia
do imóvel do laboratório de João Mello e aval do pai dele; Cr$35.638 foram
emprestados por dezenas de amigos da família de João (a família de
Conceição não colaborou); Cr$16.110 foram levados pessoalmente por centenas
de pessoas e R$4.700 foram depositados pelo público na conta bancária da
campanha de arrecadação do dinheiro do resgate. Foram devolvidos o empréstimo
bancários mais os juros e os empréstimos e depósitos identificados, que foram
a maioria. Restaram cerca de Cr$10.500 provenientes de pessoas não
identificadas, valor este que foi doado em partes iguais para três
instituições de caridade: Lar Mãe Ritinha (espírita), Asilo João Emílio
(católico) e Orfanato da Igreja Metodista do Catete. Todas as operações
bancárias e recibos podem ser vistos aqui.
Por que a mãe de Carlinhos foi presa?
Celso - Conceição foi uma das primeiras suspeitas e ficou
sobre a guarda de policiais, mesmo em casa, logo após o seqüestro (veja jornal de 07/08/1973). Depois, foi detida e interrogada sobre a sua
participação no crime, o que não foi conseguido porque ela teria surtado, porém, antes disto, teria dado detalhes que a comprometeram.
Fiquei surpresa com a sua afirmação de que a mãe teria planejado o seqüestro do próprio filho. Ela de alguma forma compactuou com o assassinato
dele. Tudo que li até agora leva a crer que foi o pai de Carlinhos o responsável pelo seqüestro. De qualquer forma, as duas situações seriam
terríveis.
Celso - Renata, primeiro, esclareço que quem afirmou isso foi a investigação policial, não é dedução minha.
Depois, permita-me discordar de você quando diz que de certa forma Maria da Conceição compactuou com o assassinato de Carlinhos. Ela jamais faria
isso, por maior que fosse sua loucura. Ela tinha fixação, adoração pelo menino. Creio que ela só veio a se convencer da morte dele - se é que se
convenceu - alguns anos depois. Na mente conturbada dela, segundo o relatório policial, esse golpe seria apenas uma maneira fácil de resolver a vida:
deixaria o marido, ficaria com o amante, levaria o filho querido e faturaria uma graninha. Não era pra ter saído tão errado.
O João Mello é um
dos maiores casos de injustiça perpretados pela polícia e, principalmente, pela imprensa. Lembra-me o caso da Escola Base, em São Paulo, onde os
diretores da escola foram injustamente acusados de abusar das crianças e tiveram suas vidas destruídas. A vida de João Mello acabou, nunca se provou
nada contra ele e ficou tudo por isso mesmo.
Celso M Serqueira
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