Caso Carlinhos
Descobrindo o seqüestro
Eu trabalhava no O Globo, reportagem policial, das 18h às 24h. Na noite do seqüestro de Carlinhos (quinta, 02.08.1973), estava no
"castigo": a cansativa escuta clandestina de rádios da polícia, bombeiros e hospitais, para interceptar chamados que pudessem significar
notícia. Num certo momento, a Central de Polícia transmitiu um comunicado para a 9ª DP (Catete) sobre um "rapto" que teria acontecido na rua
Alice e, como de costume, forneceu o número de telefone de quem comunicou o fato - era de uma padaria na esquina das ruas das Laranjeiras e Alice.
Como sempre fazíamos para colher maiores detalhes, telefonei para a padaria me passando por policial e obtive a confirmação de que alguém havia
raptado uma criança, etc, etc. Foi um custo convencer o chefe de reportagem (Ely Moreira) a liberar um fotógrafo e um carro para irmos ao local. Ele
dizia que era um assunto "pé-quebrado" (notícia fraca, sem importância), que o menino devia estar atrasado para o jantar, brincando na casa
de um coleguinha, e a mãe dele estava preocupada à toa. Só consegui a equipe para fazer a matéria depois de muita discussão. A opinião de um
"foca" não era muito considerada na redação. E naquela época, os seqüestros eram raros, uma notícia fenomenal, e não um fato corriqueiro
como atualmente. Hoje, o episódio de Carlinhos daria uma notinha interna e olhe lá. João desesperado, Conceição vendo TV
Chegamos rapidamente ao alto da rua Alice, antes mesmo dos policiais da 9ª DP, e encontramos o pai do Carlinhos no meio do asfalto,
completamente transtornado, debaixo da chuva fina, gritando desesperadamente pelo filho. Entramos na casa dele e o restante da família estava
tranqüila no sofá da sala, vendo TV. A mãe se comportava como se nada tivesse acontecido e apenas duas das crianças (se não me engano, havia quatro
irmãos presentes) pareciam assustadas.
Logo chegou o camburão da 9ª e a primeira providência seria uma busca na mata que se estendia
até quase a rua Laranjeiras, em frente à casa de Carlinhos, por onde o seqüestrador teria fugido. Como chovia muito e estava escuro, o chefe da guarnição achou
melhor chamar os bombeiros e esperar que eles trouxessem holofotes. Na verdade, deu pra notar que o
policial estava morrendo de medo de entrar no
bosque escuro. Foi então que o detetive Valdir, sabendo que a espera poderia acarretar a fuga do seqüestrador, resolveu ir sozinho atrás dele.
Pensando na possibilidade de testemunhar uma captura sensacional, resolvi acompanhá-lo (imprudência da juventude); andamos pelas trilhas, checamos
atrás de cada moita e nada. Se tinha havido alguém ali, estava longe. Foto em troca de bilhete Voltei para a casa de
Carlinhos e o fotógrafo do jornal me informou que o chefe da guarnição policial estava pedindo uma cópia da reprodução fotográfica que ele havia feito
de um pôster pendurado na sala (tornou-se a foto "oficial" de Carlinhos, sorrindo). Foi então que tomei uma atitude da qual me arrependo até
hoje: negociei com o policial. Ele teria uma cópia da foto ainda naquela madrugada, desde que nos permitisse fotografar o bilhete de resgate que
estava em seu poder. Ele topou, mas, diferentemente
do que eu combinara com o policial, o jornal estampou o bilhete na edição daquela madrugada, em 2º clichê, acarretando que imprensa, polícia, TV e
metade da população carioca estivesse aguardando o seqüestrador no local de pagamento do resgate. Vi carrocinhas de pipoca, Kibon e cachorro-quente
Geneal, só faltou o tradicional "Angu do Gomes". É óbvio que o criminoso jamais deu a cara por lá. Meu acordo com a polícia tinha sido de publicar o bilhete somente
após o pagamento do resgate, trato que não foi cumprido pelo jornal. Creio que nesse momento se definiu o desfecho da história; a
publicação do bilhete obviamente inviabilizou o pagamento do resgate e a devolução do menino. O fato jornalístico selou o destino da
vítima. Obrigado e até logo Cerca de uma hora após a minha chegada à Rua Alice, fui chamado
pelo chefe de reportagem ao rádio da viatura - ele queria saber porque eu estava demorando tanto para retornar. Relatei que o caso era mesmo de
seqüestro, que a notícia era espetacular, que havia policiais e bombeiros chegando, etc. Ele então me instruiu a continuar a apuração até a chegada de
outra equipe, com o repórter Gilson, que ele estava mandando para "ampliar a cobertura". Na prática, isso significava: "bom trabalho,
garoto, mas agora vamos passar a matéria para um repórter mais velho". Não era a primeira vez que um foca descobria um bom assunto e a reportagem ia parar, de mão-beijada, nas
laudas dos repórteres mais antigos. Mesmo assim, o material que eu havia levantado foi todo publicado na edição daquela madrugada e pouco restou
para o Gilson acrescentar naquela noite, não obstante sua participação valiosa na cobertura do desdobramento do assunto em dias
posteriores. O jeito estranho da
mãe A
mãe de Carlinhos tinha comportamento estranho e aparentava perturbação mental. Dentre as coisas anormais que chamaram a nossa
atenção, o estado de imundície
e descuido da bela casa e das crianças foi uma das mais marcantes. As meninas pareciam maltratadas e sem qualquer educação.
A atitude alienada de Maria da Conceição, que sorria para as câmeras e falava como se fosse uma artista de cinema, chegou a chocar os colegas, que logo a deixaram de lado nas
entrevistas. Estava na cara que a mulher tinha alguns parafusos a menos.
Nos muitos plantões que dezenas de repórteres demos
à frente da
casa, testemunhamos comportamentos no mínimo inadequados: ela costumava aparecer cantando ou penteando seus cabelos sensualmente na janela, de camisola,
no meio da madrugada. Adorava aparecer, uma alma de artista.
Em pleno litígio com o marido, Conceição tentou incriminá-lo de todas as formas
durante o processo de apuração policial, talvez movida por ódio ou para despistar. A maior parte de seus depoimentos sobre João Mello e seu empregado
Sílvio à polícia foram depois desmentidos, o que levou as autoridades a não considerá-la mais em suas investigações. Ditadura manda investigar Estávamos em plena ditadura e vários órgãos de segurança
estiveram discretamente (alguns nem tanto) envolvidos na investigação do caso. Virou lenda aquele cara grandão, olhos claros, pinta de galã, bem
vestido, dirigindo uma Mercedes-Benz novinha, que volta e meia acompanhava a gente nos plantões da madrugada na rua Alice. Não raro, ele passava no
Bob's e levava dezenas de sanduíches e sucos para todos nós. Uns diziam que era da Polícia Federal, outros, que era ligado à CIA e à Embaixada
Americana. Demonstrava ter acesso ao delegado encarregado da investigação. Nunca se soube quem era.
Para
resumir o assunto, que é demasiado longo, vou direto ao ponto do qual
nunca se falou: a investigação paralela desenvolvida por órgãos de
segurança e a cujo teor tive acesso. Maria da Conceição foi interrogada
por dois dias; a constatação de sua deficiência mental e o
parentesco dela com um coronel teriam levado as
autoridades a liberá-la. O relatório apresentava mais ou menos a
seguinte linha de fatos e conclusões:
1) A mãe de Carlinhos não tinha boas relações com o marido havia cerca
de dois anos e praticamente não se falavam mais. Os principais obstáculos
para a separação seriam os sete filhos e a falta de dinheiro, porque João
Mello estava numa fase financeira delicada e não teria como (ou não
queria) dar pensão a todos;
2) Conceição tinha verdadeira paixão pelo filho Carlinhos e não se
dedicava tanto às outras crianças, exceto Vera Lúcia, a quem era
chegada. Além de apresentar problemas de comportamento, a mulher era
"aficionada por magias e superstições, e freqüentava um terreiro de
macumba";
3) Ela teria se tornado íntima de um pai-de-santo, com quem planejaria o
seqüestro. Constava que o plano
original seria tirar algum dinheiro do marido e passar a viver noutro local com o amante e os filhos Vera Lúcia e Carlinhos, seus
prediletos. Mesmo que o resgate fosse pago, a criança jamais seria devolvida;
5) Além do imprevisto de o bilhete de resgate ser divulgado pelo O Globo,
o caso ganhou uma repercussão inesperada, não rendeu nenhum tostão e a
polícia começou a chegar perto, por isso, o seqüestrador desistiu da
empreitada e fugiu (teria sido posteriormente localizado no Maranhão e
morrido em confronto com agentes militares);
6) Com o aprofundamento das investigações sobre sua vida, Conceição
mudou rapidamente de comportamento, passando da macumba ao cardecismo, de
mulher fogosa a mãe extremada (papel que viria
interpretando até hoje, agora convertida em "evangélica").
Este é o resumo do que foi apurado pelos órgãos de segurança, naquela
ocasião. Por este raciocínio, quem deve saber do
destino do garoto é a sua mãe. A minha suposição é de que ele foi morto pelo seqüestrador antes da fuga. A obsessão de Maria da Conceição
por Carlinhos era tão desmedida que ela não suportaria um período tão longo sem procurar vê-lo, se ele estivesse vivo. Ela foi vigiada durante muitos
anos, sem dar nenhuma pista. Era folga do Tim
Lopes Para entender melhor como pôde acontecer
tanto desencontro no caso Carlinhos, é necessário saber que naquela época os policiais faziam de tudo para aparecer na mídia, havia uma disputa por
notoriedade só comparável a algumas histórias dos anos 30 em filmes americanos. Se alguém confessava qualquer bobagem, o delegado corria a fazer
declarações à imprensa, mesmo sem ter nada comprovado. Naturalmente, pouco depois a história desabava e ficava o dito pelo não dito, sem desmentidos
oficiais.
Por isso tem tanta acusação estapafúrdia no Caso Carlinhos, principalmente de Maria da Conceição contra o marido e seus
empregados, aparentemente, uma vingança de mulher magoada e desequilibrada. Teve até um maluco
(Adilson de tal) que foi preso pelo Delegado Moacir Bellot, da Baixada
Fluminense, por afirmar que jogara o corpo de Carlinhos no fundo da Baía de Guanabara (tive uma edição extra em O Dia, assinada, com a matéria
da descoberta de uma ossada na baía - que não era de Carlinhos, viu-se depois).
Uma
curiosidade: na equipe de reportagem policial da noite, em
O Globo, havia três profissionais da velha-guarda, Ronald, Seixas e Gilson, e dois focas - eu e Tim Lopes (assassinado em 2002 pelo traficante Elias
Maluco). Se o Tim não estivesse de folga naquela noite, o plantão no "castigo" da rádio escuta seria dele - e a história também.
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- - - - - - - - - - - - - - - À jornalista Renata Hingel
Começo a trilhar os anos derradeiros de minha vida. Até hoje, me incomodava que a verdade sobre o Caso Carlinhos
fosse morrer comigo e talvez meia dúzia de desconhecidos. Mais que um trabalho universitário, a oportunidade que você me concede é
especial. A partir de agora, você também
saberá o que eu sei e isto muda tudo, faz minhas lembranças valerem a pena. Não espere um texto trabalhado, revisado ou uma seqüência planejada. Estou
contando minha história como quem conta uma aventura. E foi. Sei que você aproveitará uma ou duas linhas, se tanto. Não importa. Quero é que você saiba a verdade e que, talvez, durante um
intervalo na faculdade,
leia esta história para colegas que queiram saber além da versão da TV e dos interesses sensacionalistas.
Obrigado. Um
forte abraço! - - - - - - - - - - - - - - - - -
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- - - - - - - Celso M Serqueira
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