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Mapa de Jerusalém, século 12

CREDO QUIA ABSURDUM (creio, mesmo que seja absurdo)

Parte 2 de 2

No ano 325, o imperador Constantino Magno convocou e presidiu o Concílio de Nicéia, na Turquia, composto por 300 "bispos" por ele nomeados, para ratificar a nova versão do Cristianismo que havia idealizado. O concílio designou a nova crença como "católica" (significa "universal") e montou uma nova versão da Bíblia. 

No inicio do Cristianismo, os evangelhos eram em número de 315 e no Concílio de Nicéia foram reduzidos para quatro, conforme interessava ao imperador. Poucos anos antes, os escritos já haviam sido objeto de uma rígida triagem (censura), visando retirar as divergências mais acentuadas em relação aos interesses da época, sendo adotadas as versões de Hesíquies, Pânfilo e Luciano. 

Para dar uma idéia do grau de adulteração da Bíblia, só na versão de Luciano existem mais de 3.500 passagens reescritas de forma diferente do original. Antes disso, no ano 170, o erudito Celso já desabafava: "Certos fiéis modificaram o primeiro texto dos evangelhos, três, quatro e mais vezes, para poder assim subtraí-los às refutações". A Bíblia que temos hoje é provavelmente o texto mais censurado, adulterado e reescrito desde que a letra foi inventada.

O COCHICHO DA POMBA

As versões sobre como se deu a escolha dos evangelhos, durante o Concílio de Nicéia, são singulares. Uma diz que enquanto os bispos rezavam, os textos inspirados foram depositar-se no altar por si só. Outra versão garante que todos os evangelhos foram colocados sobre o altar, e repentinamente os apócrifos - e apenas eles - caíram no chão. Finalmente, há quem afirme que uma pomba pousou nos ombros dos bispos e cochichou os evangelhos inspirados. 

Estes quatro evangelhos canônicos, que os católicos afirmam terem sido inspirados pelo Espírito Santo, jamais foram aceitos como tais antes do concílio. A Bíblia como um todo, aliás, era muito diferente da que conhecemos. Vários textos, chamados hoje de "apócrifos", figuravam anteriormente no compêndio, mas ao longo dos sucessivos concílios acabaram sendo eliminados. Quase nada sobrou da sabedoria antiga.

Em relação ao Antigo Testamento, os religiosos só chegaram a um acordo em 1546, no Concílio de Trento. Depois de muita controvérsia, debates e pancadaria geral, o Concílio decretou que os livros de Esdras e a Oração de Manassés seriam eliminados. Como compensação, para acalmar os ânimos da oposição, os bispos negociaram a inclusão, discretamente, de alguns textos apócrifos aos livros canônicos, como o livro de Judite (acrescido em Éster), os livros do Dragão e do Cântico dos Três Santos Filhos (em Daniel) e o livro de Baruque (na Epístola de Jeremias). 

A Igreja Católica se impôs como a dona do mundo e de tudo que nele havia. E um dos principais campos utilizados para demonstrar a sua autoridade foi a cartografia, tanto pela influência psicológica da iconografia religiosa, quanto pela manipulação das informações geográficas. Toda a ciência passou a ser controlada pelos padres. Quem discordasse, era torturado e morto.

Na medicina, por exemplo, os conhecimentos práticos tradicionais foram considerados pagãos e proibidos. A doença passou a ser concebida como fruto do pecado ou resultado de possessão demoníaca, exigindo, portanto, além de cuidados médicos, orações, arrependimento e intervenções sobrenaturais - privilégios dos sacerdotes católicos.

Até as parteiras foram perseguidas e mortas por usarem seu conhecimento médico para aliviar as dores do parto - um sofrimento, segundo a Igreja, a que a mulher estava obrigada porque representava a punição de Eva pelo pecado original. Durante 300 anos de caça às "bruxas", a Igreja Católica queimou na fogueira mais de cinco milhões de mulheres que não se dobraram a ela. Mas isso é outra (triste) história.

Celso Serqueira